A última

Uma ligeira brisa levanta,

tal asa pousada nas costas de um anjo,

a pena caída, perdida.

Uma curva se desenha, ténue,

dobrando o dorso da vida que se inclina

sem vergonha nem compromisso.

Não pode haver economia alguma

nas lágrimas do corpo propositadamente caído

na areia que será um dia vidro.

Basta aguardar que sopre do sul o vento

que poderá aliviar as pálpebras e pintar

o coração disposto a tudo.

Das penas perdidas resta sempre a memória,

guardada em cada poro, sentida em cada gesto,

que jamais poderá arrancar-se.

Escreve nas nuvens a evidente verdade: sem ela

nenhuma porta poderia abrir-se, nenhuma voz,

por mais ínfima que soe,

poderia ser guardada.

Não chores sobre as pedras caídas.

Não tentes recolher as penas espalhadas.

Alma minha, avança e diz ao vento

que o murmúrio que me varre o peito

tem nome.

Grita para que lhe guardes a confiança;

Esperança.

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Signaux

Une goutte  de rosée sur un pétale flétri,
un souffle de vent qui sèche la sueur
des amours désespérés.
Gestes frénétiques de ceux qui savent
que le moment passera, emportant dans son sillage
l’espoir d’un lendemain.
Une goutte de rosée cueillie par le printemps,
sur des doigts hésitants, pétrifiés par la peur
que la nuit ne s’efface.
Souffles rythmés par les passions niées,
hésitantes entre les pensées et les sensations
dénuées de sens.
Et le mouvement d’un coeur endormi,
anesthésié par la crainte des espoirs déçus;
Nuage de fumée.
Brûle le temps comme autant de feuilles mortes
accumulées par l’automne de ce qui n’a jamais existé;
Vanité des désespérés.
dm

Cores

Há luz nas cores que nos levam
até aos sonhos da criança que esquecemos.
São estrelas vivas que pulsam nas nossas veias
iluminando o que somos na realidade.
Fazem cair as máscaras construídas pelos medos
para melhor se adaptar à conformidade
que os olhares alheios nos impõem
– ou que nos deixamos impor.

Os olhos que temos não alteraram desde a infância,
mas o prisma através do qual observamos mudou,
desformado pelo desejo de agradar, de se encaixar
nos cubículos restritos que a vida nos leva a aceitar.

Abre os olhos! Não os feches quando a luz transparece
num raio simples que aquece a alma!
Vê as cores que a beleza dos reflexos oferece!

Só assim se poder caminhar na direção dos sonhos
e ver que, afinal, a cor é vida.

A ilha

Basta decidir entrar no mar e iniciar o percurso a nado numa direção inabitual para que, sem que nada tenha sido feito nesse sentido, apareça no horizonte a ilha tão desejada.

Ela tinha sido sonhada, imaginada, pintada na mente de todas as formas possíveis, mas – por múltiplas razões – o sonho fora abandonado e outras possibilidades consideradas.

Só sobrava o desejo dela, escondido bem no fundo da alma, por ter sido considerado que era impossível atingi-la, porque nos faltavam meios, coragem, apoios ou simplesmente por temer tentar.

Mas, como o sonhador é incorrigível, chegaram outros devaneios, outros desejos, outros projetos. Uns foram, outros surgiram, até que finalmente chegou aquele que conseguimos iniciar, lançando-nos ao mar para iniciar a travessia que, apesar de não ser isenta de riscos, foi escolhida e decidida.

E quando a ilha aparece, qual não é a vontade de correr para ela! Lá vamos nós, tentando alcançar ambos o antigo e o novo sonho, ao risco de nos perder, certamente, mas sabendo que de nada vale encontrar-nos se não temos essência.

É então que aparecem, a meio da travessia, as sereias que nos chamam cantando os méritos que ainda não comprovámos (e que nem temos a certeza de deter). A distração pode ser-nos fatal se esquecermos o objetivo final: o sonho por realizar e a motivação que nos vai na alma.

Contamos os bateres do coração e fazemos que eles contem. Sem tentação não há realização. Quem nunca sofreu uma derrota não sabe o quão valiosa é a vitória.

Arriscamos sempre algo na vida. Todos os dias. Todos os instantes. Hoje já está quase a terminar e amanhã ninguém sabe o que o espera. O que devemos saber é que, cedendo ou não às tentações que se apresentam no caminho, a vida é única e cada luta merece ser travada.

 

Casos

Não são acasos que ligam seres e mentes.
São casos de gentes, que sem querer criam elos.
Ninguém sabe dizer quando se inicia a história
ou quando se termina a solidão de um instante.
São mãos que já não procuram apertar
os frios dedos que se estendem. 
Nada mais é necessário encontrar depois de descobrir
o calor que vem do interior.
É mais forte que todas as neves eternas,
avança mais longe que todas as lavas da terra.

São casos sem acaso, momentos sem escolha, 
alvos encontrados sem flecha,
setas que não dizem direções
mas acertam nos corações.

Direções

Se a tua voz se abrir
para dizer o que te vai na alma,
prefere sempre deixar fluir
a luz do olhar sobre o céu.
A voz é boa e bonita
mas não poderá contar
os bateres do coração
que só no silêncio 
se podem escutar.

Quando a solidão te magoar
e que não souberes mais
em que direção caminhar,
deixa nascer o sonho
que te levará a quem desejas ver.
Bem sei que não é igual
à carícia de um ser amado,
mas a solidão só é verdade
quando se esquece a saudade.

Não me digas, então,
se sou louca ou sensata.
A minha loucura é o meu sonho.
A sensatez não tem rumo.
Sou apenas a mesma
que imagina e inicia caminhadas
sem saber o seu destino.